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Blog Mudou-se
Pássaro
Sua pulsação linear não se alterava. Durante anos permaneceu. A pulsação sem se alterar. Caminhava no mesmo movimento, não que fosse lento, apenas não havia aceleração alguma. Sua vida organizava-se feito engrenagem. Cada coisa em seu lugar. Perfeito sempre. Sem direito à bagunça. Sem direito ao caos. Se uma pena caísse em sua frente e o fizesse desacelerar, tudo ruíria. Ruim, pensou ele. Quebraria, como um castelo de cartas finamente articulado, que não permite o vento bater e embaralhar. Nunca parava, porque não existia dúvida, conflito ou crise. Apenas a latência de caminhar dia a dia rumo à certeza. De acumular. Se vestir. Dirigir o carro. Tomar um drink ao fim de sexta. Até que um dia, enquanto distraído, dava corda em seu relógio, aconteceu o imprevisto. Mas não um imprevisto qualquer, não um imprevisto banal, e sim algo fora de seu controle que abalaria sua vida de uma forma inesquecível, irrevogável, degradante, atordoante, humilhante. Ante o que, ele nada podia fazer a não ser se quebrar. Suas peças tornaram-se muitas e atravessaram o espaço separando-se, cortando. Ele sequer entendia, pensava, pensava, tentava juntar suas peças e quanto mais se exauria, mais se cortava no fio das peças que ele mesmo juntava. E quando deu-se conta, era também sua pele que começava a derreter, seus cabelos, os olhos, a orelha, os pelos, o nariz. Até que restou pequeno. Mínimo reduzido. Tentou articular uma palavra, e apenas o que soprou foi um assovio. Olhou seu reflexo na janela que ainda fechada mostrava. Ele havia se tornado um pássaro. no meio de sua rotina. um pássaro.
Publicado em prosa
nessa chuva
nessa chuva
quero me molhar
só de você
(embaixo do cobertor)
Publicado em poesia
(para Robson)
A chuva
cessa
vai embora
mas (sempre)
fica a saudade
daqueles
deixados
por ela
se molhar
umedecidos.
terra.
Publicado em poesia
1001 noites
te entrego
minhas noites
(todas)
me entrego
em pele
sonho
e alma
Publicado em poesia
saudade
quero abraços
de sangue
em tuas
pernas
teu rastro
deixado
sinto
saudade
Publicado em poesia
pedaços de sono
Quando começou a me roubar o sono, eu já não dormia e sequer acordava, vivia em meu estado sonolento magnetizado, meus pensamentos em transe diurno convergiam somente a ela. E ela talvez, por saber, me mantinha nesse estado, roubando pedaços de meu sono a cada noite.
Publicado em prosa
mar aberto
não é
preciso
maomé
ser
para abrir
os mares
basta seu
sussuro
de mulher
(áquario)
Publicado em poesia
faça as contas
quando
dei me
conta
contei
demais
de mim
quando
dei me
conta
você
tomou
conta
de mim
me perfurmou de você
fez esquecer de dormir
agora me conta
ao acordar
ou deixar
de dormir
ainda
vai lembrar
de mim?
Publicado em poesia
cotidiano
Era tarde quando saiu de casa para devolver os filmes que alugados e não assistidos tomavam seu tempo no ir e vir até a locadora. Foi a pé porque não podia dirigir. Devido a. Um acidente. Acidente é aquela ocorrência imprevisível que ás vezes cai no abismo de nosso cotidiano bem em cima de nossa cabeça. E que. De certa forma. Nos desperta. Era tarde quando despertou para devolver os filmes que sequer havia assistido. Despertou do sono com algo que caiu acidentalmente em sua cabeça. E abalou os pensamentos, os atos daquela tarde. De todo fim de semana. A ponto de. Não poder. Agir como o planejado e assistir um filme especialmente desenhado para acidentar o cotidiano de alguém.
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fantasma
Seguia a vida como um fantasma, já não sentia o corpo, tinha perdido a alma. Penada. Prosseguia sendo empurrado pelo vento. O peso que não tinha. Não tinha peso, não tinha nada. E se não tinha o que seria? Como se classificaria se até seu nome se perdera, como se entender não tendo nada? Como ser além do vazio sendo só alma? Seguia sem vida o fantasma. Penava.
Publicado em prosa
viva
aquele pedaço
que você conheceu
não existe mais
de tanta dor não sou mais o mesmo
mas também não sei mais o que sou
porque ainda
estou exposto
quem terá mãos
pra me tocar
a pele
viva
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tchau
Não devo mais falar com você já falei demais sozinho mas o que você vai me dar de aniversário é daqui a pouco sabia você acha que sou chato só porque fico falando sozinho com você acha que sou emocionalmente instável que tenho problemas é só eu que tenho problemas você não tem eu te ajudo me peça que eu te ajudo me dá um problema seu crava tuas unhas em mim e me abraça você acha que eu falo demais ou escrevo demais eu me passei e você vai ser sincera comigo vai me dizer que eu passei do limite vai dizer que chega quando for o momento ou vai só se afastar eu não sou assim é só agora juro é o café culpa do café que está aumentando minhas sinapses e me deixando assim sim eu vou parar com o café agora mesmo não tomo mais mas agora posso falar não sou assim péssimo sabe só estou são as estrelas a lua os astros você que não me responde só porque estou em desesepero e começo a falar demais você que nunca me dá oi nunca me dá bom dia que nem sequer me olha se eu não aceno e por isso tenho acenado demais mas tem sido demais é que ando emocionalmente instável não não sou emocionalmente instável vai passar no dia primeiro tudo vai passar e vou ser uma pessoa melhor meu sangue vai circular coisas boas pro meu coração de volta sei que vai porque o sol por mais que eu não goste dele tem que aparecer um pouquinho ou as estrelas devem vir me iluminar um pouquinho ei você nem me deu tchau tchaaaau
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o cachorro que atropelou a bicicleta
Ontem, eu caminhava para almoçar numa churrascaria barata, almoço que me dei de presente. Até que em pleno semáforo atravessa comigo um senhor. Andava com dificuldade, como se tivesse uma das pernas meio metro mais curta que a outra, seu movimento cambaleava de diagonal pra diagonal apoiado em uma muleta. Quando dei-me conta ele estava ao meu lado me acompanhando, perguntou sobre o ônibus, se iam para e respondi que não sabia ao certo, mas achava que todos iam para . Olhei para o lado, e vi seu esforço em acompanhar minha caminhada natural. Contou-me então num resumo sua vida: Eu era pedreiro, mas um cachorro passou na frente da minha bicicleta, aí quebrei o fêmur e nunca mais prestei. Agora to aqui batalhando vendendo toalha. Pausa. Apesar do esforço em caminhar, ele falava natural. batalhando, ecoou. Calor né? Concordei com o calor, falei algo que não me lembro, fiquei na dúvida se perguntava da toalha, se comprava uma, mas ele não ofereceu, senti que ia quebrar o clima da amizade se eu perguntasse, e enquanto pensava ele se despediu com um sorriso e entrou em uma loja que estava aberta. De muleta, mais rápido que os meus pensamentos.
Publicado em prosa
atrevimento
Moravam a cerca de uma hora de distância, anos passaram trafegando nessa hora sem jamais se conhecerem. Conheceram um ao outro em um encontro furtivo, uma troca de olhares, palavras, e-mails, nada mais. E o fato é que nenhum dos dois se atreveu a atravessar a distância para o encontro real.
Sei que deram de se encontrar em outro país, a muitas horas de distância do que ambos chamariam de casa, como se um encontro como aquele não pudesse ser realizado num lugar comum, como se precisasse de um cenário, um clima. Para talvez o mais comum dos encontros: uma troca de sorrisos, um sem-jeito-de-falar, um silêncio que escapa por entre as palavras. A luz que pede pra se apagar. E um cenário, que não se pode esquecer…
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