Sua pulsação linear não se alterava. Durante anos permaneceu. A pulsação sem se alterar. Caminhava no mesmo movimento, não que fosse lento, apenas não havia aceleração alguma. Sua vida organizava-se feito engrenagem. Cada coisa em seu lugar. Perfeito sempre. Sem direito à bagunça. Sem direito ao caos. Se uma pena caísse em sua frente e o fizesse desacelerar, tudo ruíria. Ruim, pensou ele. Quebraria, como um castelo de cartas finamente articulado, que não permite o vento bater e embaralhar. Nunca parava, porque não existia dúvida, conflito ou crise. Apenas a latência de caminhar dia a dia rumo à certeza. De acumular. Se vestir. Dirigir o carro. Tomar um drink ao fim de sexta. Até que um dia, enquanto distraído, dava corda em seu relógio, aconteceu o imprevisto. Mas não um imprevisto qualquer, não um imprevisto banal, e sim algo fora de seu controle que abalaria sua vida de uma forma inesquecível, irrevogável, degradante, atordoante, humilhante. Ante o que, ele nada podia fazer a não ser se quebrar. Suas peças tornaram-se muitas e atravessaram o espaço separando-se, cortando. Ele sequer entendia, pensava, pensava, tentava juntar suas peças e quanto mais se exauria, mais se cortava no fio das peças que ele mesmo juntava. E quando deu-se conta, era também sua pele que começava a derreter, seus cabelos, os olhos, a orelha, os pelos, o nariz. Até que restou pequeno. Mínimo reduzido. Tentou articular uma palavra, e apenas o que soprou foi um assovio. Olhou seu reflexo na janela que ainda fechada mostrava. Ele havia se tornado um pássaro. no meio de sua rotina. um pássaro.